O chocolate sabe bem mas… engorda!

Aqui há uns meses atrás, uma notícia fez furor na comunicação social e nas redes sociais. Uma equipa de investigadores havia chegado à conclusão que o chocolate seria um alimento saudável e contribuiria, inclusive, para perder peso.

A todos quantos correram aos supermercados a comprar umas quantas tabletes de chocolate, de consciência tranquila e até com uma certa satisfação por estarem a fazer um bem à sua saúde, lamento informar que tudo não passou de uma mentira.

Young cute woman trying to eat chocolates over white background

A notícia é falsa, o estudo não existe e “os investigadores”, afinal, é um jornalista!

Mas o motivo que levou a que este jornalista cometesse este pecado de mentir a tanta gente é muito bom e merece a nossa melhor atenção.

Passo a resumir uma história longa. Dois repórteres de uma televisão alemã estavam a trabalhar numa reportagem, ainda não exibida, que pretende mostrar como uma boa parte dos estudos acerca de nutrição e de alimentos são de má qualidade, não são ciência e estão ao serviço da indústria alimentar e de outros interesses económicos.

Com esse intuito contactaram um jornalista para que este forjasse um estudo acerca dos benefícios do chocolate para perder peso, reunindo um painel de cientistas, um grupo de pessoas para participarem num conjunto de experiências e alguém que procedesse à análise dos dados recolhidos. Depois de manipular os dados deste hipotético estudo, este jornalista, submeteu os resultados a vários jornais e revistas científicas com o intuito de que este fosse aceite e publicado. Usou nomes falsos para identificar todos os intervenientes da experiência.

Cabe aos editores das publicações científicas, garantirem que os critérios de rigor de um estudo são cumpridos. No entanto, apenas metade dos editores a quem este “estudo” foi submetido, recusaram a sua publicação por não cumprimento desses mesmos critérios.Scientific_Method_Trans1

E assim se publicou um estudo falso acerca dos pretensos benefícios do chocolate que correu o mundo. Os fabricantes de chocolate venderam um pouco mais e nós, os consumidores, fomos mais uma vez enganados e prejudicamos um pouco mais a nossa saúde.

Este é apenas o mais recente exemplo de como é fácil colocar a ciência ao serviço de interesses que não os do bem das pessoas. Aliás, já aqui tinha falado de como as atuais recomendações nutricionais tiveram como base má ciência. A chamada “lipid hypothesis”, ou, em português, “hipótese dos lípidos” conseguiu fazer florescer quer a industria alimentar de hidratos de carbono altamente processados, quer a industria farmacêutica dos medicamentos para baixar o colesterol, empurrando as culpas da doença cardíaca para as gorduras saturadas e dando origem à epidemia de obesidade a que agora assistimos. É curioso como volvidos 40 anos de investigação científica, a “hipótese dos lípidos” nunca se concretizou como a “certeza dos lípidos”!

A nutrição é um tema tão vasto como complexo. Pelo facto de todos nós comermos e de querermos ser saudáveis, tornamo-nos vulneráveis a todas as notícias a este respeito, ainda que falsas. Esperemos que iniciativas independentes como a NuSI possam trazer alguma ciência de qualidade na qual possamos confiar inteiramente. Até lá temos que estar atentos e sermos críticos quanto às notícias que vão sendo publicadas todos os dias.

Afinal comer chocolate terá que continuar a ser um prazer esporádico.

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