Alimento para o cérebro

Hoje questionaram-me sobre se não necessitaríamos de ingerir hidratos de carbono devido ao facto de o cérebro depender da glicose para… funcionar.woman-snorting-doughnuts

Este é mais um dos casos em que um falso facto é tantas vezes repetido que acaba por se tornar verdade, apesar de não o ser.

De facto, é bem conhecido e estudado que o cérebro é capaz de oxidar corpos cetosos, nomeadamente Beta Hydroxy Butyrate. Isto é, este produto do metabolismo de ácidos gordos, pode ser usado como energia pelo cérebro, desde as fases iniciais da vida. Chama-se a este estado metabólico cetose alimentar ou, em inglês, ketosis.

Não deixa, no entanto, de ser curioso que esta fonte de energia para o cérebro seja quase sempre referida como uma fonte de energia alternativa à glicose. É considerado o combustível de recurso do cérebro em períodos de privação alimentar.

Mas não é verdade que assim seja. Uma dieta muito baixa em hidratos de carbono e alta em gordura, promove o mesmo comportamento do cérebro. Na ausência de glicose, o cérebro de um ser humano, ainda que bem nutrido, passa a consumir essencialmente corpos cetosos como fonte de energia.brain_waste-1024x474

Quanto à afirmação de que esta é uma fonte de energia alternativa, estranho o facto da muita evidência cientifica que demonstra, uma e outra vez, os benefícios deste estado metabólico na preservação do bom funcionamento do cérebro, prevenindo e combatendo doenças como Alzheimer, Epilepsia, Parkinson e preservando a memória. Pelo contrário, vêm sendo publicados estudos que referem potenciais efeitos adversos sobre o cérebro do consumo excessivo de hidratos de carbono.

Questiono-me se não será mais um caso em que se confunde correlação com causalidade. É um facto que na abundância de hidratos de carbono, o ser humano, que em cada momento não pode ter mais do que o equivalente a uma colher de café de açúcar a circular na corrente sanguínea, usa a glicose como fonte de energia. Mas não será essa também uma forma de controlo do nível de açúcar no sangue? Parte da glicose é usado imediatamente como energia, outra é guardada como glicogénio no fígado e músculos e a restante, é transformada em gordura e guardada sob esta forma no tecido adiposo.

O ser humano existe há 2,5 milhões de anos. Durante todo este tempo teve como base alimentar a gordura e a carne dos animais que caçava ou coletava e esporadicamente, os frutos, sementes e vegetais que sazonalmente estavam disponíveis. Como nesta altura ainda não havia cadeias de fast food nem um restaurante em cada esquina, será seguro dizer que havia alturas de escassez alimentar e fome. Tudo isto configura uma dieta cetogénica, a tal que protege o cérebro. Foram 2,5 milhões de anos de adaptação a este regime alimentar!

Pelo contrário, o aumento de hidratos de carbono na alimentação, apenas começou há uns poucos milhares de anos com a descoberta da agricultura. Ainda assim, nada comparável com o nível de hidratos de carbono que se consomem desde há 50 anos a esta parte.

Afinal não será a glicose a fonte de energia alternativa do ser humano e a gordura a principal?

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One thought on “Alimento para o cérebro”

  1. Uma dieta carregada de carboidratos simples terminam por colocar o cerebro numa montanha-russa constante, de altos e baixos na disponibilidade do seu principal nutriente. Isto e totalmente incompativel com as necessidades de um cerebro do qual se espera alta performance ou quando ja existe uma tendencia para a hipofuncao metabolica do TDAH.

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